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01 de dezembro de 2014

Nutrição

Termogênicos parte I: carnitina como fat burner

Poucos assuntos são tão polêmicos e controversos como as estratégias de perda de peso e redução de gordura corporal. Talvez por ser um dos objetivos mais comuns entre praticantes de exercício e entre aqueles que aderem às mais inusitadas dietas, as informações sobre formas de acelerar a queima de gordura são confusas, controversas, cercadas de mitos e teorias metabólicas absurdas. O pior? A incansável busca pela “pílula mágica” que (nunca!) resolverá os problemas de um jeito fácil faz com que muitos acreditem cegamente em falsas promessas. É nesse contexto que o consumo dos ditos “suplementos termogênicos” é tão comum.


Por definição, e como o próprio nome sugere, substâncias termogênicas têm a capacidade de aumentar o gasto energético, por meio do aumento da produção de calor. Apesar disso, muitos dos suplementos vendidos como termogênicos contém substâncias cujo efeito não é exatamente termogênico. Uma vez que o efeito esperado de um termogênico é a redução do peso e/ou gordura corporais, suplementos contendo substâncias capazes de inibir o apetite, promover saciedade, ou dificultar a absorção intestinal de alguns nutrientes (que obviamente podem levar à perda de peso e/ou gordura) também fazem parte da formulação de muitos suplementos considerados termogênicos. Avaliando os rótulos dos principais produtos vendidos no mercado, percebemos que a maioria deles contém um ou mais dos seguintes princípios ativos: carnitina, cafeína, catequinas, efedrina, sinefrina e capsaicinoides. Todas essas substâncias serão discutidas, mas o foco deste texto será a carnitina.


A carnitina é uma substância naturalmente encontrada em nosso organismo, principalmente dentro das células musculares. Sua função é transportar gordura para a mitocôndria, compartimento celular onde ocorre sua queima para gerar energia. Os primeiros estudos in vitro (isto é, realizados em tubo de ensaio) e estudos posteriores com humanos mostraram que o fator limitante para a queima de gordura é o seu transporte para a mitocôndria. Portanto, se fosse possível aumentar a velocidade desse transporte, seria possível aumentar a queima de gordura. Além disso, esses estudos também mostraram que tal transporte é limitado pela quantidade de carnitina dentro da célula muscular. Consequentemente, aumentar a quantidade de carnitina dentro dos músculos aumentaria a taxa de queima de gordura.


Há anos esse raciocínio tem sustentado a venda de carnitina como “fat burner”. No entanto, diversos estudos (como este) falharam em mostrar que a suplementação de carnitina era capaz de aumentar a taxa de queima de gordura. Na verdade, a suplementação de carnitina era sequer capaz de aumentar a quantidade de carnitina dentro do músculo, condição essencial para que ela pudesse potencializar a queima de gordura.


Apesar de inúmeros estudos terem sido incapazes de confirmar qualquer efeito positivo carnitina, um grupo de pesquisadores da Inglaterra publicou, em 2006, um estudo em que foi demonstrado que existe uma barreira para a entrada de carnitina no músculo (por sinal, muito difícil de ser transposta!), qual seja: diferenças muito grandes na concentração de carnitina entre músculo e sangue (isto é, um gradiente de concentração). Na tentativa de aumentar a entrada de carnitina no músculo, os autores testaram se o aumento da insulina circulante (hormônio que potencializa a entrada de diversas substâncias dentro das células, incluindo a glicose) era capaz de facilitar a entrada de carnitina no músculo. A boa notícia: sim, altas concentrações de insulina facilitaram a entrada de carnitina nas células musculares.


A explicação para o insucesso de tentativas anteriores poderia estar bem aí: o consumo de carnitina deveria ser feito junto ao de carboidratos, para que a insulina liberada após a consumo de carboidratos facilitasse a entrada de carnitina. E foi exatamente isso que o mesmo grupo de ingleses demonstrou num estudo publicado em 2011: consumir carnitina junto com 80 g de carboidratos é sim capaz de aumentar a quantidade de carnitina no músculo, potencializando a queima de gordura durante o exercício. Mas atentem para um detalhe: a dose de carnitina era consumida 2 vezes ao dia (total de 160 g de carboidrato por dia) por 24 semanas! Isso equivale a mais de 26 kg de carboidratos, ou mais de 105 mil calorias! Ainda que essa estratégia de suplementação possa ser útil para melhorar o desempenho de um atleta de longa distância, será que o pequeno efeito de aumentar a queima de gordura durante o exercício (sem efetivamente aumentar o gasto calórico) supera a quantidade de calorias a mais? Lembrem-se: o que determina a perda de peso, em última análise, é o déficit energético (queimar mais calorias de que ingerir). Portanto, é muito pouco provável que a carnitina tenha qualquer valor clinicamente relevante na perda de gordura e controle do peso corporal. Uma boa alimentação, a prática frequente de exercícios, bom senso e moderação ainda são (e sempre serão!) as melhores “pílulas” do emagrecimento.



Um abraço e até a próxima!



Guilherme Artioli







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