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12 de janeiro de 2015

Nutrição

Termogênicos (Parte 3): o que esperar da cafeína?

A cafeína é um dos mais populares suplementos alimentares. Além de seus comprovados efeitos positivos sobre o desempenho físico e esportivo (assunto para um post futuro), alega-se que a cafeína é termogênica, promovendo perda de peso e de gordura corporal. Vejamos o que a ciência tem a dizer sobre isso.


A cafeína é uma molécula pertencente ao grupo químico das xantinas. Ela é encontrada em diversos alimentos, como café, chocolate e alguns tipos de chá e, portanto, pode ser naturalmente consumida na dieta. Por ser rapidamente absorvida pelo intestino, o pico de cafeína no plasma é atingido cerca de 30-60 minutos após a ingestão, e seu tempo de desaparecimento é igualmente rápido, de tal modo que a cafeína plasmática retorna aos valores normais algumas horas após a ingestão.


  A ação da cafeína sobre nosso organismo ocorre por diversos mecanismos, sendo o bloqueio de um tipo de receptor denominado receptor de adenosina um dos mais relevantes. Portanto, os efeitos da cafeína ocorrerão em todos os tecidos onde houver receptores de adenosina e, uma vez que ela bloqueia tais receptores, a cafeína terá efeitos contrários ao do receptor. Assim, basta entender um pouco sobre os receptores de adenosina para entender como a cafeína funciona. Outros efeitos da cafeína sobre o sistema nervoso também podem ser mediados pelo bloqueio de receptores benzodiazepínicos. Nos músculos, alguns efeitos podem ser mediados pelo cálcio. Mas, por ora, vamos simplificar e falar apenas dos receptores de adenosina.


Receptores de adenosina são localizados em diversos tecidos, como coração, vasos, tecido adiposo e cérebro. O fato desses receptores estarem espalhados em diversos locais de nosso corpo explica porque a cafeína tem ações em vários órgãos. Quando estimulados, esses receptores diminuem a frequência cardíaca e a pressão arterial (efeitos no coração e vasos), reduzem as transmissões sinápticas (isto é, as conexões nervosas) e desaceleram a lipólise (isto é, a quebra das moléculas de gordura no tecido adiposo). A cafeína, sendo um inibidor desses receptores, tem ação oposta; após seu consumo, observa-se aumento da pressão arterial e da frequência cardíaca, aumento das transmissões sinápticas (que explica o “estado de alerta” que a pessoa fica após consumir cafeína) e aumento da lipólise. É justamente o aumento da lipólise o efeito que as pessoas buscam na tentativa de perder peso e gordura.


No entanto, ganhar ou perder peso não depende apenas da lipólise. Ao contrário, a quantidade de gordura quebrada nos tecidos adiposos em nada influencia o peso corporal. Conforme já dissemos aqui neste blog, o que determina o ganho/perda de peso é o equilíbrio entre energia consumida e energia gasta. Além disso, quebrar gordura não significa que tal gordura será queimada. Isso porque a quebra e a queima de gordura são processos independentes. Portanto, aumentar a lipólise não necessariamente significa que a queima de gordura será acelerada.


Apesar disso, a cafeína possui ainda a capacidade de aumentar um pouco o gasto energético. Esse efeito sim, se suficientemente pronunciado fosse, poderia auxiliar na redução de peso e, quem sabe, de gordura. Infelizmente, tal efeito é muito discreto. De tão mínimo, seu significado clínico é considerado desprezível. Além de diminuto, esse aumento do gasto energético é transiente e de curta duração. Tão logo a cafeína plasmática retorne aos valores normais, seu efeito deixa de ser observado. Alguns poderiam imaginar, com certa razão, que bastaria repetir a dose de cafeína em intervalos regulares para repetir o efeito de aumento do gasto energético e, assim, aumentar seu significado clínico. Faz sentido, mas vale uma ressalva: a cafeína, assim como ocorre com muitas outras substâncias que atuam sobre receptores, apresenta “efeito de dessensibilização”, quando consumida regularmente. Em outras palavras, o consumo regular de cafeína exigiria doses cada vez mais altas para que os mesmos efeitos fossem observados (esse mesmo fenômeno explica porque usuários regulares de cafeína não respondem bem à suplementação). Em pouco tempo, doses elevadas teriam de ser consumidas para se alcançar efeitos pequenos. Parece-me que há um problema grave e irremediável de custo e benefício...


Em suma, os benefícios da cafeína como termogênico são altamente questionáveis e muito provavelmente sem qualquer significado clínico. Insisto no fato de que não existem pílulas mágicas que substituem exercícios físicos regulares e uma boa alimentação. Se existissem, tais pílulas já teriam resolvido o enorme problema de obesidade que enfrentamos atualmente. Mas não é caso...


Um abraço e até a próxima!


Guilherme Artioli - Blog Ciência Informa


www.cienciainforma.com.br


Para saber mais:


Manore M . Dietary supplements for improving body composition and reducing body weight: where is the evidence? Int J Sport Nutr Exerc Metab. 2012 Apr;22(2):139-54.


Naomi L. Rogers &  David F. Dinges. Caffeine: Implications for Alertness in Athletes. Clin Sports Med 24 (2005) e1– e13.






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