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16 de marÇo de 2015

Exercícios

2 mitos sobre o uso “seguro” de esteroides anabolizantes

Há dois grandes mitos sobre a segurança do uso abusivo de esteroides anabolizantes. O primeiro diz respeito à suposta ausência de evidências científicas que comprovem que o uso dessas substâncias é nocivo à saúde. O segundo refere-se à falácia de que usuários de esteroides anabolizantes estão “protegidos” quando são acompanhados por profissionais que prescrevem (ilegalmente) essas drogas.


Seja na tentativa de se alcançar o “corpo perfeito”, seja no intuito de conseguir resultados esportivos mais expressivos, é crescente o uso abusivo de esteroides anabolizantes. Embora alguns reconheçam os riscos ao quais se submetem, há 2 mitos que ainda confundem as pessoas sobre a segurança dessas substâncias, favorecendo o uso indiscriminado delas. 


Mito 1: “Não há boas evidências de que esteroides anabolizantes prejudicam à saúde” 


Já ouvi tal frase, infelizmente, de muitos profissionais de saúde que defendem o uso dessas substâncias para fins estéticos ou esportivos. Esse argumento sustenta-se na ausência de estudos controlados (considerado o modelo experimental ideal para testar o efeito de determinada intervenção sobre qualquer parâmetro de saúde) envolvendo usuários abusivos de esteroides anabolizantes. Trata-se no entanto, de um erro de interpretação científica. Na verdade, há várias formas de se obter relação de causa (ex. uso de esteroides) e efeito (ex. prejuízos à a saúde) por meio de achados científicos outros que não aqueles vindos de ensaios clínicos controlados. Por exemplo, o imenso número de estudos com células (também chamados de estudos de cultura) e com modelos animais demonstram claramente o efeito tóxico dos esteroides anabolizantes em diversos tecidos, tais como cardíaco, renal, cerebral e hepático. Além disso, há diversos (e bons) estudos retrospectivos que associam o uso de esteroides abusivo de esteroides anabolizantes com inúmeros problemas de saúde, que vão de perda de libido à morte súbita. Entram nessa categoria também os interessantes estudos de caso, que descrevem os sistêmicos e graves efeitos deletérios sofridos pelos usuários crônicos de esteroides. Para complementar, estudos controlados com populações idosas com hipogonadismo (condição que induz redução na concentração de testosterona) submetidas ao famoso TRT (terapia de reposição de testosterona) – diga-se de passagem, em doses terapêuticas, e não abusivas, como se pratica comumente nas academias – sugerem um risco aumentado de eventos cardiovasculares secundário ao uso dessas drogas. Mas por que não há estudos controlados com usuários abusivos dessas substâncias? Simplesmente, porque seriam eticamente inaceitáveis. Diante das inúmeras evidências apresentadas acima, quem em sã consciência submeteria voluntários saudáveis a um regime crônico de esteroides anabolizantes, meramente para saciar a curiosidade científica de determinar que essas drogas, de fato, são muito nocivas à saúde?! É o mesmo caso do cigarro. Por muito tempo, o lobby da indústria tabagista em favor do fumo baseou-se na premissa de que estudos controlados que compravam os malefícios do cigarro não existiam. Hoje em dia, diante das inúmeras evidências científicas acumuladas, ninguém mais dúvida que o fumante tem risco aumentado de doenças pulmonares, mesmo na ausência de estudos clínicos controlados em que indivíduos fossem estimulados a fumarem maços de cigarro ao longo dos anos. Dessa forma, é falsa a argumentação de que não existem evidências científicas que apontem os efeitos adversos dos esteroides anabolizantes. 



Mito 2: “Estou protegido ao tomar esteroides anabolizantes quando receitados pelo médico”


Espanta-me o número crescente de indivíduos que recebem esteroides anabolizantes de seus próprios médicos (como denunciado pela Veja em 2013). Intriga-me a razão que leva um médico (ou qualquer outro profissional de saúde) a prescrever essas drogas a um indivíduo saudável. Má formação profissional e acadêmica, charlatanismo, falta de ética, ganância ou uma combinação das anteriores poderiam explicar tal conduta. O que mais me preocupa, no entanto, é que muitos usuários abusivos de esteroides anabolizantes sentem-se seguros e amparados quando estão sendo acompanhados por um profissional durante seu “ciclo”. Não sabem, contudo, que o fato de receberem suas drogas receitadas pelo médico em nada reduz suas chances de sofrerem danos graves à saúde. Acreditar que exames laboratoriais de rotina possam “blindar” contra o aparecimento de câncer, insuficiência renal aguda, insuficiência hepática, morte súbita (e a lista é longa...) é uma mera ilusão, sem nenhum respaldo científico. Portanto, caso algum profissional tenha lhe sugerido o uso “seguro” de esteroides anabolizantes como forma de alcançar seus objetivos, denuncie-o ao seu respectivo conselho profissional e jamais volte a vê-lo. 


Até a próxima!  


Bruno Gualano - BLog Ciência Informa


www.cienciainforma.com.br


Para conhecer mais sobre o tema, leia: 


Yesalis CE, Bahrke MS. Anabolic-androgenic steroids. Sports Med 1995;19(5):326e40. 


Kanayama G, Hudson JI, Pope Jr HG. Long-term psychiatric and medical consequences of anabolic androgenic steroid abuse: a looming public health concern? Drug Alcohol Depend 2008;98(1):1e12. 


Parkinson AB, Evans NA. Anabolic androgenic steroids: a survey of 500 users. Med Sci Sports Exerc 2006;38(4):644e51. 


Kanayama G, Hudson JI. Risk factors for illicit anabolicandrogenic steroid use in male weightlifters: a cross-sectional cohort study. Biol Psychiatry 2012;71(3):254e61.


Achar S, Rostamian A, Narayan SM. Cardiac and metabolic effects of anabolic-androgenic steroid abuse on lipids, blood pressure, left ventricular dimensions, and rhythm. The American Journal of Cardiology, 2010 106(6), 893–901. 


Dickerman RD, Schaller F, Prather I, McConathy WJ. Sudden cardiac death in a 20-year-old bodybuilder using anabolic steroids. Cardiology 1995; 86(2), 172–173








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Prof. Associado da Universidade de São Paulo

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Pós-Doutora na Universidade de São Paulo (USP)

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Prof. Dr. da Universidade de São Paulo

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Prof. Dr. da Universidade de São Paulo