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18 de setembro de 2014

Exercícios

Sobre o milagre das pílulas do exercício

De tempos em tempos aparece uma nova promessa de medicamento que substituiria a prática regular de exercícios físicos. Mas você acha que isso é (ou será) possível?


√Č com certa frequ√™ncia que surgem not√≠cias bomb√°sticas a respeito da descoberta de uma nova droga capaz de "imitar" a a√ß√£o do exerc√≠cio f√≠sico sobre o organismo. As chamadas "p√≠lulas do exerc√≠cio" (ou "mim√©ticos do exerc√≠cio") vendem muitos jornais e revistas, entusiasmam profissionais da sa√ļde e, por motivos √≥bvios, causam al√≠vio aos sujeitos sedent√°rios, como se a solu√ß√£o para todos os problemas advindos do estilo de vida inativo pudesse ser comprada na prateleira de uma farm√°cia.

Sob o ponto de vista da fisiologia, no entanto, h√° diversas falhas conceituais que arrefecem nossa esperan√ßa nas "p√≠lulas do exerc√≠cio". Em primeiro lugar, os experimentos que apontam a√ß√Ķes similares entre subst√Ęncias farmacol√≥gicas e exerc√≠cio f√≠sico s√£o realizados com cultura de c√©lulas ou roedores (para um exemplo, ver este artigo). Evidentemente, h√° um salto muito grande de l√≥gica para se concluir que humanos respondem a determinada interven√ß√£o da mesma forma que c√©lulas isoladas ou animais de diferentes esp√©cies. Em segundo lugar, n√≥s, fisiologistas, esperamos que uma droga taxada como mim√©tica do exerc√≠cio exer√ßa todas as a√ß√Ķes deste. O problema √© que nenhuma droga √© (e provavelmente jamais ser√°) capaz de promover tantos efeitos abrangentes como o exerc√≠cio, beneficiando, praticamente, todos os sistemas do organismo. Algumas drogas, quando muito, exercem efeitos espec√≠ficos que se assemelham √† a√ß√£o do exerc√≠cio, como melhora na sensibilidade √† insulina (a exemplo da metformina) ou no perfil lip√≠dico (a exemplo das estatinas), de modo que n√£o podem ser consideradas, no rigor da palavra, "mim√©ticos" do exerc√≠cio". Outro ponto que merece destaque diz respeito √† seguran√ßa das "p√≠lulas do exerc√≠cio". Para serem consideradas verdadeiros mim√©ticos do exerc√≠cio, novas drogas precisam ser submetidas a testes cl√≠nicos rigorosos que apontem efeitos adversos similares √†queles atribu√≠dos ao pr√≥prio exerc√≠cio f√≠sico, os quais s√£o bastante infrequentes (num post futuro, trataremos deste tema). Infelizmente, estudos pr√©-cl√≠nicos t√™m demonstrado que os "mim√©ticos do exerc√≠cio" podem apresentar riscos graves √† sa√ļde das cobaias testadas, o que indica que a implementa√ß√£o cl√≠nica dessas drogas est√° longe de ocorrer. Por fim, n√£o nos esque√ßamos dos custos vultosos associados ao desenvolvimento de medicamentos, que podem alcan√ßar a cifra de USD 1,2 bilh√£o por nova droga que chega ao mercado. Certamente, tais custos s√£o repassados ao consumidor, o que nos faz duvidar que alguma interven√ß√£o farmacol√≥gica seja, de fato, capaz de tamb√©m "imitar" os baixos custos do exerc√≠cio f√≠sico.

Preocupa-me, especialmente, a ilus√£o propagada pelas "p√≠lulas do exerc√≠cio" de que a pr√°tica de atividade f√≠sica pode ser meramente substitu√≠da por uma ou mais drogas, o que encoraja um estilo de vida mais inativo e, dessa forma, presta um desservi√ßo √† sa√ļde p√ļblica. Os farmacologistas mais otimistas podem at√© argumentar que, talvez, um dia, os bisnetos de nossos bisnetos possam desfrutar de uma era na qual f√°rmacos sejam capazes de produzir, por completo, os efeitos do exerc√≠cio (algu√©m acredita mesmo que a sensa√ß√£o de prazer e bem-estar proporcionada pelo exerc√≠cio poder√° ser substitu√≠da por uma droga?); entretanto, at√© que esse dia enfim chegue, permanece sendo a pr√°tica de atividade f√≠sica regular a mais efetiva estrat√©gia capaz de prevenir as doen√ßas cr√īnicas que assolam de maneira crescente a popula√ß√£o mundial.

O conceito imbuído nas "pílulas do exercício" é realmente tentador; soa como o "caminho-mais-fácil-a-seguir", o "soma" de Audous Huxley (droga capaz de tratar todos os males da humanidade, no clássico "Admirável Mundo Novo"), o verdadeiro milagre criado como uma luva ao homem moderno que não possui mais tempo para o supérfluo, como a atividade física. Infelizmente, para a ciência, milagres não existem...

Prof. Bruno Gualano

Para saber mais do assunto, leia:
Gualano B e Tinucci T. Sedentarismo, exerc√≠cio f√≠sico e doen√ßas cr√īnicas (2011) Revista Brasileira de Educa√ß√£o F√≠sica e Esporte. 25: 37-43 (Edi√ß√£o Especial).
Booth FW e Laye MJ. Lack of adequate appreciation of physical exercise¬ís complexities can pre-empt appropriate design and interpretation in scientific discovery (2009) J Physiol 23: 5527¬Ė5540.






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Prof. Bruno Gualano, PhD
Prof. Associado da Universidade de S√£o Paulo

Profa. Desire Coelho, PhD
Nutricionista Clínica e Esportiva

Profa. Fabiana Benatti, PhD
Pós-Doutora na Universidade de São Paulo (USP)

Prof. Guilherme Artioli, PhD
Prof. Dr. da Universidade de S√£o Paulo

Prof. Hamilton Roschel, PhD
Prof. Dr. da Universidade de S√£o Paulo