Home Nutrição Exercícios Saúde Quem Somos A que viemos Contato

28 de setembro de 2016

Exercícios

Exercícios aeróbios não matam, não engordam, e não causam diabetes

Pouco tempo atrás, circularam alguns posts pela internet afirmando que o exercício aeróbio engordava. De tempos em tempos, aparecem e reaparecem mensagens sugerindo que o exercício (independente da modalidade e intensidade) não é uma boa ferramenta para tratamento da obesidade. Mais recentemente, ganharam muita repercussão textos afirmando que o treinamento aeróbio poderia causar diabetes, e outros sugerindo que treinamento aeróbio poderia aumentar a mortalidade. Apesar desses textos normalmente serem “recheados” de termos difíceis, vias bioquímicas, eventos moleculares e supostos “fatos” científicos, tais ideias não passam de grandes bobagens. Com intuito de combater esses mitos que estão sendo criados e que se espalham rapidamente entre profissionais e formadores de opinião, o texto de hoje traz alguns fatos que contestam a ideia de que o treinamento aeróbio possa predispor ao diabetes, reduzir a sensibilidade à insulina ou aumentar a mortalidade.


Abaixo, trago um pouco do que tem sido escrito internet afora (ou que se depreende) sobre supostos malefícios do treinamento aeróbio:



1. treinamento aeróbio engorda.



Já discuti sobre esse assunto anteriormente aqui no blog, e também já escrevi sobre alguns conceitos comumente equivocados sobre emagrecimento por aqui. Em vez de me repetir, peço ao leitor interessado no assunto que siga os links.



2. treinamento aeróbio pode aumentar a mortalidade.



Desconheço estudos que mostrem, do ponto de vista epidemiológico, que o exercício aeróbio aumenta o risco de mortalidade. Por outro lado, não faltam evidências indicando exatamente o contrário: pessoas que se exercitam têm menor risco de mortalidade por todas as causas; mesmo que se exercitem em baixas intensidades, de forma não sistematizada, ou em volume/intensidade inferiores às preconizadas pelos colégios de medicina do esporte. O mesmo vale para o risco de mortalidade por doenças cardiovasculares e metabólicas. O mesmo vale também para a incidência de doenças crônico-degenerativas. Abaixo, apresento alguns resultados de um estudo grande, importante, bem controlado e bem executado que mostram com clareza ímpar que correr diminui a mortalidade por todas as causas e por doenças cardiovasculares, independente da idade. Apresento também outra linha de evidência em favor do treinamento aeróbio, em que ter melhor aptidão cardiovascular (ou melhor potência aeróbia) também reduz a mortalidade.





Em vários desses textos que tentam minimizar a importância dos aeróbios, fica a impressão de que o objetivo maior é supervalorizar o treinamento de força ou o treinamento em alta intensidade (HIIT). Curiosamente, o acúmulo de evidências em favor do exercício aeróbio na redução da mortalidade e diminuição da incidência de doenças crônicas é muito maior do que as evidências em favor do treinamento de força ou do HIIT. Obviamente, isso não significa que aeróbio seja superior aos demais, mas é um mero reflexo do fato de ser estudado há muito mais tempo. Pelo contrário, existem também evidências mostrando que treinamento de força e até o HIIT têm impacto positivo para a saúde. Isso, na verdade, está fora de discussão. O que não faz o menor sentido, não é razoável e tampouco responsável, é criar boatos sobre os falsos riscos de um tipo de exercício apenas para ressaltar o valor de outros.



3. exercício aeróbio aumenta a resistência à insulina e o risco de desenvolver diabetes do tipo II.



Aqui temos um exemplo claro de como é possível chegar a conclusões absurdas quando teorias são colocadas à frente de fatos. Já comentamos aqui no blog como é comum vermos hipóteses (que podem até fazer algum sentido) sem qualquer respaldo em observações científicas sendo tomadas como se fossem a mais sagrada verdade.  No mais recente show de “picuínhas metabólicas”, a relação de causalidade entre exercício aeróbio e diabetes foi estabelecida com base no aumento de enzimas do metabolismo da glicose, da inflamação, da produção de radicais livres e de lipídios intramusculares.



Não vou aqui explicar pormenorizadamente porque nenhum desses argumentos faz o menor sentido, pois isso já foi feito por outros. Minha intenção aqui é engrossar o coro dos que clamam por ética e responsabilidade na divulgação desse tipo de informação. Aos que “consomem” esse tipo de informação, recomendo cuidado e senso crítico. Lembrem-se: teorias são apenas teorias. Bioquímica, enzimas, moléculas, DNA, RNA, nomes difíceis e blá blá blá... isso tudo pode soar bonito e até explicar mecanismos (em outras palavras, como as coisas acontecem). Porém, antes do “como”, é preciso saber se essas coisas realmente acontecem. Quando uma teoria entra em conflito com os fatos, troque de teoria, não deturpe os fatos.



Um exemplo: antes de dizer como o exercício aeróbio leva à resistência à insulina, é necessário saber se ele realmente leva à resistência à insulina. No caso do exercício aeróbio e diabetes, o acúmulo de evidências é tão grande em favor do exercício aeróbio que uma única leitura é suficiente para mostrar o grau de evidência em favor do treinamento aeróbio na prevenção e controle do diabetes. Sugiro aos leitores que consultem a posição oficial do Colégio Americano de Medicina do Esporte e da Associação Americana de Diabetes (texto completo aqui). Aproveito para apresentar um gráfico mostrando menor incidência do diabetes em indivíduos fisicamente ativos. Por fim, relembro aqui um estudo que observou piora na sensibilidade à insulina pela simples redução no número de passos/dia que uma pessoa executa (redução de atividade aeróbias de baixa intensidade, certo?) (JAMA. 2008;299(11):1261-1263).





Destaco que o que eu escrevi aqui não se refere ao treinamento para o esporte. Acho que ninguém em sã consciência defende que esportes de endurance ou ultraendurance devam ser recomendados para quem deseja melhorar seu estado de saúde (lembremos dos conceitos de esporte vs. exercício vs. atividade física). Da mesma forma, e olhando para o outro extremo, ninguém recomendaria fisiculturismo, power lifting ou crossfit competitivo para quem quer saúde. Portanto, percebam que não se trata de dizer se essa ou aquela modalidade de treinamento é boa ou perigosa à saúde. Trata-se, ao invés, de tratar os fatos com o devido rigor. Exercício faz bem à saúde, seja ele aeróbio, de força, ou HIIT. Por que não combiná-los ao gosto, às possibilidades e às particularidades de cada um?



Abraços e até a próxima!



Guilherme Artioli







Comentários

Veja também


- CrossFit: os riscos compensam os benefícios?
- Crossfit aumenta o risco de lesão?
- Tem alguma doença reumática? Então faça exercício físico!
- Esporte não é “saúde”...mas será que é “doença”?
- Como o exercício físico previne câncer de mama?
- Sobre a tara em se reduzir o dano muscular induzido pelo exercício...
- HIIT QUEIMA MAIS GORDURA DO QUE EXERCÍCIOS AERÓBIOS... OU NÃO!
- Exercícios aeróbios não matam, não engordam, e não causam diabetes
- Dano muscular e hipertrofia: será o fim do "no pain, no gain"?
- Quer dizer que a atividade física não funciona para reduzir o peso corporal? Hora de colocar alguns pingos nos “is”...
- O mito das dietas low-carb e o papel da insulina no emagrecimento
- A atividade física ideal!
- “Disseram que eu não posso fazer atividade física...”
- Quando devo aumentar a carga de treinamento?
- Esclarecimentos sobre “exercício aeróbio engorda” e “exercício aeróbio não emagrece”.
- Treinar em jejum: bom, ruim ou depende?
- Por que entramos em fadiga?
- Quanto maior a carga, maior o ganho de massa muscular...certo?! Ou não?
- HIIT - Treino Intervalado de Alta Intensidade, parte 2.
- HIIT - Treino Intervalado de Alta Intensidade
- Lactato: de causador da fadiga a aliado do desempenho.
- Queimar gordura somente após 20 minutos de aeróbio?
- Overtraining: O que, de fato, é isso?
- Percentual ou distribuição de gordura corporal: qual o melhor preditor de risco cardiovascular?
- Resposta hormonal ao exercício de força e aumento de massa muscular: Qual a relação entre eles?
- Cortar peso é prejudicial ao lutador?
- Treinamento de força com oclusão vascular: O que é e para quem serve?
- Quem faz musculação fica baixinho?
- Quando um gêmeo se exercita e o outro … não.
- Testes de DNA para detecção de talentos no esporte: cedo demais para ser verdade?
- 2 mitos sobre o uso “seguro” de esteroides anabolizantes
- CrossFit: os riscos compensam os benefícios?
- Treinamento intervalado para crianças: uma alternativa possível
- Ciência InForma responde: É importante variar os exercícios no treino de musculação?
- “Eu até tento, mas não “respondo” ao exercício...”
- Exercício em jejum: Fazer ou não fazer, eis a questão (Parte 3)
- Exercício em jejum: Fazer ou não fazer, eis a questão (Parte 2)
- O fisiculturismo como um estilo de vida saudável?
- Exercício em jejum: Fazer ou não fazer, eis a questão (Parte 1)
- Quando chega a "conta" do sedentarismo?
- Exercício sem dieta emagrece?
- Treinamento de força para todos
- Lactato: amigo ou vilão do desempenho?
- Sobre o milagre das pílulas do exercício



Busca

Receba Atualizações

Envia sua sugestão de temas


Nossos Colaboradores

Prof. Bruno Gualano, PhD
Prof. Associado da Universidade de São Paulo

Profa. Desire Coelho, PhD
Nutricionista Clínica e Esportiva

Profa. Fabiana Benatti, PhD
Pós-Doutora na Universidade de São Paulo (USP)

Prof. Guilherme Artioli, PhD
Prof. Dr. da Universidade de São Paulo

Prof. Hamilton Roschel, PhD
Prof. Dr. da Universidade de São Paulo