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27 de maio de 2015

Vida e Saúde

As hipóteses, os fatos e as “picuinhas metabólicas” na Nutrição Esportiva...

Por trás de cada um dos inúmeros suplementos esportivos existentes no mercado, há sempre uma explicação “científica” que ampare sua capacidade de melhorar o rendimento físico ou a composição corporal. O que pouca gente nota é que, na maioria das vezes, a tão aludida “prova” de que determinado suplemento funciona não passa de uma boa hipótese científica...neste post, vamos entender como princípios básicos da ciência são, geralmente, mal interpretados na Nutrição Esportiva, confundido os usuários de suplementos e os profissionais que os prescrevem.


Para entendermos como a má interpretação do que é hipótese ou fato influencia a nossa avaliação sobre a eficácia de determinado suplemento nutricional, analisemos o seguinte exemplo:


“A carnitina, nutriente presente em carnes, participa ativamente do processo de oxidação lipídica,transportando os ácidos graxos de cadeia longa para o interior da mitocôndria.  Como explicado anteriormente no post do Prof Guilherme Artioli, o fator limitante para a queima de gordura é o seu transporte para a mitocôndria, o que, por sua vez, é limitado pela quantidade carnitina dentro da célula muscular. Estudos recentes demonstram que a suplementação de carnitina, de fato, pode aumentar suas concentrações no músculo. Logo, conclui-se que a suplementação de carnitina funciona como um fat burner”. 


No exemplo acima, percebam que todas as informações metabólicas sobre a carnitina são amplamente amparadas pela ciência, e, à bem da verdade, poderiam cair muito bem num belo rótulo de suplemento esportivo. A única “pequena” falha de raciocínio se deve a conclusão em grifo, que não possui boa fundamentação científica. Em outras palavras, os resultados obtidos em estudos como humanos não permitem concluir que a carnitina age aumentando a queima de gordura, provando ser incorreto qualquer “salto de lógica” do postulado mecanismo de ação desse suplemento ao seu real efeito clínico.     


É preciso entender que todas as informações bioquímicas obtidas a partir de estudos pré-clínicos (em células isoladas ou animais de experimentação) são de suma importância em oferecer um referencial teórico para a possível ação de determinado suplemento nutricional, porém não constituem, por si só, evidência de eficácia deste suplemento em humanos. Em outras palavras, o conhecimento metabólico de determinado nutriente pode gerar boas hipóteses de pesquisa, as quais, apenas quando testadas e confirmadas por estudos clínicos bem controlados, tornam-se fatos que fundamentam as prescrições. Na Nutrição Esportiva, a maioria dos produtos encontrados no mercado possuem um mecanismo de ação - dos mais plausíveis aos mais esdrúxulos -, porém, é possível contar nos dedos de uma mão os suplementos que exercem o efeito que se propõem em humanos (em especial, em atletas). 


A indústria da suplementação esportiva costuma fazer bom uso dessa confusão que existe entre hipótese e fato, atraindo o consumidor muito mais pela promessa do que pela realidade.  Essa prática não científica de “defender” o uso de determinado suplemento esportivo em função de seu potencial mecanismo de ação na ausência de estudos em humanos que o comprove (ou, especialmente, na presença de estudos em humanos que o desaprove) foi elegantemente alcunhada como “picuinha metabólica”, pelo meu caro amigo Guilherme Artioli. Já no jargão científico, poderíamos definir tal conduta como reducionista, ou seja, aquela que se vale do estudo da “parte” para se compreender o “todo”. Ocorre que, há mais de um século, o pensamento reducionista tem sido considerado inadequado para explicar a alta complexidade biológica dos seres humanos, como brilhantemente apontado por um dos mais notórios filósofos da ciência biológica, Ernst Mayr (uma ótima sugestão de leitura segue abaixo).  A dieta, o nível de treinamento e a biodisponibilidade e a captação do nutriente suplementado são apenas alguns importantes fatores que podem explicar a ineficácia de um determinado suplemento nutricional na prática clínica, mesmo na presença de um bom mecanismo teórico para seu uso.  


Como dica que ao usuário ou ao professional prescritor de suplementos nutricionais, sugiro que avaliem criteriosamente a evidência que está por de trás de cada produto, tendo em mente que entre o mecanismo de ação (ou hipótese) - por mais atrativo e promissor que seja -  e a comprovação de eficácia (ou fato), há um imenso abismo, que raramente os une.        


Até a próxima!  


Bruno Gualano - Blog Ciência inForma


www.cienciainforma.com.br



Para conhecer mais sobre o tema, leia: 


Burke L and Deakin V (org). Clinical sports nutrition. 4 ed. Australia: McGraw-Hill, 2009


Ernst Mayr.  This is Biology: The Science of the Living World (1998; ed. esp. Así es la biología, 1998)








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Prof. Bruno Gualano, PhD
Prof. Associado da Universidade de São Paulo

Profa. Desire Coelho, PhD
Nutricionista Clínica e Esportiva

Profa. Fabiana Benatti, PhD
Pós-Doutora na Universidade de São Paulo (USP)

Prof. Guilherme Artioli, PhD
Prof. Dr. da Universidade de São Paulo

Prof. Hamilton Roschel, PhD
Prof. Dr. da Universidade de São Paulo