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30 de novembro de 2015

Vida e Saúde

Por que sentimos câimbras?

Contrações musculares involuntárias, normalmente intensas e doloridas. Se você já sentiu isso na pele (ou melhor, no músculo), sabe que estou falando de câimbras. Embora a maioria das pessoas acredite que as câimbras sejam causadas pela perda de sais no suor (como sódio e potássio), a verdade é que sabemos muito pouco sobre suas causas. Pior, parece que sódio e potássio nada têm a ver com isso. Em tempo, comer bananas tampouco irá preveni-las


Nem todas as câimbras são iguais



Existem diferentes tipos de câimbras: as noturnas, as que ocorrem em repouso, as que ocorrem em decorrência de doenças raras e aquelas que acontecem quando fazemos exercício. Neste post, obviamente o foco será apenas as câimbras associadas ao exercício.



A ciência ainda sabe muito pouco sobre as câimbras



Sim, não sabemos dizer com segurança e precisão qual ou quais são as causas das câimbras. Isso porque esse fenômeno é muito difícil de ser estudado no laboratório. Por ser algo “espontâneo”, difícil de induzir e de duração muito curta, é quase impossível conduzir estudos experimentais com câimbras. Assim, resta-nos fazer associações, especulações, criar, refutar e recriar teorias.



Teoria dos distúrbios hidroeletrolíticos.



O nome é complicado, mas o conceito é fácil de entender: quando nos exercitamos, suamos para manter a temperatura corporal. No suor, perdemos água e sais. Tal perda leva a desidratação e altera a concentração de sais como sódio, cloro e potássio em nosso sangue. Uma vez que a excitabilidade das células musculares depende da concentração de sais, alterações eletrolíticas que acompanham a sudorese excessiva podem fazer com que os músculos se tornem hiperexcitáveis. Logo, eles se tornariam mais propensos a contraírem-se involuntariamente, causando câimbras.



Algumas observações “históricas” apoiaram essa hipótese, como a alta frequência de câimbras entre trabalhadores braçais expostos ao sol e/ou calor por longos períodos. Outros relatos mostraram que dietas muito pobres em sal (feita por 10 dias) resultaram em câimbras frequentes. Tal quadro foi revertido ao reintroduzir-se o sal à dieta. Uma vez que esses indivíduos tomavam água normalmente, era pouco provável que as câimbras tenham sido causadas por desidratação. 



Outro estudo com jogadores de futebol americano mostrou que aqueles que tinham histórico de câimbras frequentes perdiam cerca de duas vezes mais sódio e cloro no suor do que seus pares sem histórico de câimbras. Por isso, alguns acreditam que atletas de “suor salgado” estão mais propensos a sofrerem com câimbras, e que a reposição de sais seria o tratamento mais efetivo. Um dado interessante é que a perda de potássio é bastante similar entre atletas de “suor salgado” e “suor normal”. Além disso, a perda de potássio no suor é muito pequena, especialmente em comparação à perda de sódio e cloro. Logo, não há nenhuma razão para acreditar que câimbras sejam causadas por perda de potássio, muito menos que o consumo de alimentos ricos em potássio (como a banana) possam preveni-las.



Outro fator frequentemente associado à ocorrência de câimbras é o exercício em ambientes quentes, em que a sudorese é exacerbada, a perda de sais é intensa e a temperatura corporal tende a subir. Por isso, alguns autores consideram que câimbras no esporte são, na verdade, câimbras de calor. 



5 motivos para refutar a teoria do calor e da perda de sais



Uma teoria só tem serventia se for capaz de explicar os fatos. Quando novos fatos não são explicados pela velha teoria, é hora de abandoná-la. Esse parece ser o caso, e aqui apresento algumas razões para não acreditar na teoria dos distúrbios hidroeletrolíticos.




  1. se a perda de sais do sangue realmente causasse fadiga, todos os músculos deveriam contrair-se involuntariamente. No entanto, sabemos que atletas têm câimbra em músculos isolados, sobretudo naqueles que foram exaustivamente solicitados durante o exercício. Isso indica que a fadiga localizada deve ter alguma participação no início da câimbra;

  2. pelo menos 4 estudos não confirmaram a associação entre câimbras e distúrbios hidroeletrolíticos. Esses estudos também não apoiam a hipótese da desidratação como causa das câimbras e indicam que a teoria do “suor salgado” também explicam a ocorrência de câimbras no exercício.

  3. se o calor fosse condição essencial para o disparo da câimbra, não observaríamos tantos casos de câimbras em eventos em ambientes frios, incluindo até natação e esportes em águas frias

  4. atletas sem aumento da temperatura corporal também têm câimbras, o que reforça a ideia de que o calor não faz parte das causas da câimbra

  5. estudos em que atletas são “aquecidos” de forma passiva (isto é, sem exercício) não são capazes de induzir câimbras, indicando novamente que o calor não participa da câimbra.



Fadiga neuromuscular: uma nova teoria da câimbra



Uma nova de forma explicar a câimbra durante o exercício deve deixar de lado o calor, os distúrbios hidroeletrolíticos e deve contemplar a fadiga muscular. Essa nova teoria diz que, quando fadigado, o músculo:




  1. recebe um maior número de disparos elétricos nervosos para se contrair

  2. apresenta uma redução da atividade elétrica que inibe a contração muscular (para os entendidos em fisiologia, atividade dos nervos Ib dos órgãos tendinosos de Golgi).



Em outras palavras, a teoria diz que a fadiga muscular faz com que aja um aumento do estímulo elétrico para a contração muscular concomitante a uma redução do estímulo para o relaxamento muscular. O resultado é uma superexcitação do músculo, causando a contração involuntária.



A teoria também explica porque apenas os músculos mais exercitados apresentam câimbras, e porque é possível sentir câimbras mesmo após exercícios curtos (sem perda significativa de sais) e muito intensos.



Por fim, pelo fato da teoria lidar com o equilíbrio dos reflexos de excitação e inibição muscular, os quais são também afetados pelo comprimento do músculo, a teoria também explica porque é possível induzir câimbras mesmo sem exercício. Basta, por exemplo, deixar a panturrilha semicontraída (músculo encurtado) e fazer uma contração isométrica bem forte. 



Sugestão: não faça esse teste em casa!



Sei que entender bem a nova teoria é difícil, e talvez apenas os aficionados por fisiologia o façam. Mas perceber os furos das teorias de perda de sais e a ineficiência do consumo de alimentos ricos em potássio é importante. Aliás, a nova teoria também explica porque o melhor tratamento para a câimbra é alongar imediatamente o músculo afetado...



Saudações e até a próxima!



Guilherme Artioli - Blog Ciência inForma



www.cienciainforma.com.br



 



Referências:



Schwellnus MP. Muscle Cramping in the Marathon: Aetiology and Risk Factors. Sports Med 2007; 37 (4-5): 364-36



Sulzer NU, Schwellnus MP, Noakes TD. Serum electrolytes ironman triathletes with exercise-associated muscle cramping. Med Sci Sports Exerc 2005; 37: 1081-5



Schwellnus MP, Nicol J, Laubscher R, et al. Serum electrolyte concentrations and hydration status are not associated with exercise associated muscle cramping (EAMC) in distance runners. Br J Sports Med 2004; 38: 488-92.



Maughan RJ. Exercise-induced muscle cramp: a prospective biochemical study in marathon runners. J Sports Sci 1986; 4:31-4.



Hutton RS, Nelson LD. Stretch sensitivity of Golgi tendon organs in fatigued gastrocnemius muscle. Med Sci Sports Exerc 1986; 18: 69-74.



Eichner ER. The Role of Sodium in ‘Heat Cramping’. Sports Med 2007; 37 (4-5): 368-37.



Stofan JR, Zachwieja JJ, Horswill CA, et al. Sweat and sodium in NCAA football players: a precursor to heat cramps? Int J Sport Nutr Exerc Metabol 2005; 15: 641-52.



McCance RA. Experimental sodium chloride deficiency in man. Proc Royal Soc London Biol 1936; 119: 245-68. 







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