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13 de julho de 2015

Vida e Saúde

A mais nova droga “anti-obesidade” e os mesmos velhos dilemas...

Eis que surge mais um estudo clínico, numa prestigiosa revista científica, anunciando os benefícios de uma droga relativamente nova – liraglutide – no combate à obesidade. Antes de celebrar, que tal um olhar mais profundo sobre esse estudo? Leiam o post e tirem suas próprias conclusões...


“Neste estudo, liraglutide (3,0 mg), como um adjuvante à dieta e ao exercício, foi associada com redução de peso corporal e melhora no controle metabólico”. Essa foi a conclusão dos autores de um ensaio clínico recentemente publicado na renomada revista científica The New England Jornal of Medicine, que contou com o patrocínio da empresa de medicamentos Novo Nordisk. Esse estudo avaliou 3331 participantes obesos ou com sobrepeso, selecionados em 27 países de todos os continentes. Os voluntários receberam, por cerca de 13 meses, injeções de 3 mg de placebo ou liraglutide, uma droga análoga ao glucagon-like peptídeo -1 (também conhecida como GLP-1, hormônio secretado por células do intestino), capaz de agir no pâncreas aumentando a secreção de insulina.  



Após a intervenção, os participantes que receberam liraglutide apresentaram uma redução de peso corporal superior à dos que receberam placebo (em média, -8 Kg vs. -3 Kg). Cerca de 63% dos participantes que usaram a droga perderam maior do que 5% do peso corporal, em comparação a 27% dos que receberam placebo. Além disso, a liraglutide foi associada à melhora de parâmetros metabólicos, como, por exemplo, pressão arterial e hemoblogina glicada (um marcador importante de controle da glicose na circulação).  



Embora soe tentador acreditar que temos uma nova e poderosa “arma de fogo na guerra contra a obesidade” – chavão que normalmente ouvimos a cada vez que um estudo anuncia a criação de um nova droga “anti-obesidade” –, há ponderações que devem ser feitas antes de tirarmos maiores conclusões a respeito da eficácia da liraglutide no controle do peso corporal.  



1) Ainda que se trate de um estudo com méritos inquestionáveis, como, por exemplo, o grande tamanho da amostra e o longo tempo de intervenção, há limitações que confudem as interpretações dos autores. Como destacado no primeiro parágrafo desse post, os autores concluem que a liraglutide pode atuar como um adjuvante terapêutico ao exercício e à dieta. No entanto, não há indícios de que os participantes se engajaram em programas de atividade física ou que alteraram o consumo alimentar; os pesquisadores apenas aconselharam-nos, de tempos em tempos, a realizarem mais atividade física e a restringirem o consumo de calorias.  Como todos sabemos, se o simples aconselhamento sobre o um estilo de vida saudável fosse o bastante, os índices de obesidade não seriam tão alarmantes. Infelizmente, como não há menção à aderência à dieta ou à atividade física, torna-se impreciso dizer que a droga atuou como adjuvante às intervenções consideradas como “tratamento de primeira linha” para a obesidade. 



2) Os efeitos adversos preocupam. Cerca de 40% dos participantes que receberam a liraglutide apresentaram náusea e 21%, diarreia (contra 15% e 9%, respectivamente, no grupo placebo). É possível que a perda de peso mais acentuada dentre aqueles que receberam a droga possa ser explicada, em parte, por esses sintomas, afinal, quanto o maior o enjoo, menor a apetite. Além disso, tais sinais podem ter levado os participantes a descobrirem que estavam recebendo a droga ativa, e não o placebo. Como consequência, os voluntários podem ter se empenhado mais em alcançar os resultados esperados (lembram-se do “efeito placebo”?). A incidência de câncer de mama também foi numericamente superior no grupo liraglutide (dado apresentado em detalhes apenas no material suplementar do artigo), de modo que o efeito carcinogênico dessa droga merece futuras investigações. Por fim, os efeitos benéficos da droga foram rapidamente revertidos quando da interrupção do tratamento, sugerindo que seu uso crônico seja necessário. Se a liraglutide é segura em longo prazo (ex.: > 5 anos) é uma questão que permanece sem resposta.



3) Num primeiro olhar, os resultados parecem bastante atrativos e promissores, mas qual o significado clínico deles? Por exemplo, a perda de peso corporal mais efetiva (> 10%) ocorreu apenas para 1/3 dos participantes que receberam a droga (vs. 10% no grupo placebo). Pode-se argumentar que se trata de uma perda clinicamente significante, especialmente se acompanhada de melhoras na composição corporal e parâmetros metabólicos. Infelizmente, os pesquisadores não avaliaram a massa magra e gorda. No que se refere aos marcadores de risco cardiovascular, houve melhoras estatisticamente significantes para boa parte deles no grupo que recebeu a droga; entretanto, as mudanças observadas são de significância clínica questionável. Por exemplo, a melhora no HDL (o “bom” colesterol) de 2%  associada ao uso da liraglutide significa um aumento das concentrações dessa lipoproteína de 50 (valor médio do grupo antes da intervenção) para 51 mg/dL. Evidentemente, no “mundo real”, essa suposta melhora é negligenciável. Tal conclusão pode se aplicar à pressão arterial e às concentrações de glicose e insulina circulantes também, tão alardeadas no estudo. 



4) Fico em dúvida em relação ao custo-benefício do uso da liraglutide. Como base nos achados desse estudo e os custos dessa droga, podemos estimar que a perda de 1 Kg “custou” cerca de R$ 3400 por mês para cada voluntário! Suspeito que a aplicação dessa dinheirama em intervenções não farmacológicas sabidamente efetivas no controle do peso corporal – e sem sem efeitos adversos – poderia ser mais interessante.



Como alegam os autores desse estudo, a perda de peso é difícil de ser mantida por meio de mudanças no estilo de vida somente. Embora seja tentador – em especial à indústria farmacêutica – usar tal argumento na busca de drogas que “tratem” a obesidade, nem sempre o caminho mais fácil pode ser a solução. Intervenções que levem à perda sustentável e progressiva de gordura corporal (e não necessariamente do peso corporal), de modo saudável e com efeitos benéficos ao organismo como um todo, como aqueles promovidos pela dieta balanceada e pela prática regular de atividade física, embora difíceis de serem implementadas, seguem sendo a forma mais eficaz, segura e barata de prevenção da obesidade e, sobretudo, das doenças à ela associadas. 



 



Até a próxima!  



Bruno Gualano - Blog Ciência inForma



www.cienciainforma.com.br



 



Para conhecer mais sobre o tema, leia: 



Pi-Sunyer X, Astrup A, Fujioka K, Greenway F, Halpern A, Krempf M, Lau DC, le Roux CW, Violante Ortiz R, Jensen CB, Wilding JP; SCALE Obesity and Prediabetes NN8022-1839 Study Group.N Engl J Med. 2015 Jul 2;373(1):11-22. doi: 10.1056/NEJMoa1411892. A Randomized, Controlled Trial of 3.0 mg of Liraglutide in Weight Management. 



Thyfault JP, Du M, Kraus WE, Levine JA, Booth FW. Physiology of sedentary behavior and its relationship to health outcomes.. Med Sci Sports Exerc. 2015 Jun;47(6):1301-5







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Prof. Bruno Gualano, PhD
Prof. Associado da Universidade de São Paulo

Profa. Desire Coelho, PhD
Nutricionista Clínica e Esportiva

Profa. Fabiana Benatti, PhD
Pós-Doutora na Universidade de São Paulo (USP)

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Prof. Dr. da Universidade de São Paulo

Prof. Hamilton Roschel, PhD
Prof. Dr. da Universidade de São Paulo