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11 de outubro de 2016

Vida e Saúde

O “coach” e a cartomante

A busca pelo sucesso profissional, pela felicidade plena e a saúde física e mental é um desejo longínquo do ser humano. Tão antiga quanto a arte de vender sonhos inalcançáveis e fórmulas mágicas para a solução de todos os problemas que afligem a humanidade. No post de hoje, conheça o que (não) há de científico por detrás das promessas do “coaching de vida”.


É impressionante notar que uma busca no Google com o termo “coaching” é capaz de retornar 254.000.000 resultados. Na verdade, buscar por “coaching” nem seria necessário, afinal quantos de nós não temos nossa caixa de e-mails bombardeada for ofertas de cursos de “coaching”? As promessas são as mais diversas: por um módico investimento (o que não é verdade, evidentemente), tenha sucesso no amor, ganhe fortunas do trabalho, atraia mulheres e homens, à sua preferência, e assim por diante. Recentemente, os tentáculos dos “coaching” têm se ampliado à área de saúde, oferecendo alívio às grandes mazelas do homem moderno, incluindo obesidade, “estresse” e baixa qualidade de vida. É o tal do “coaching de vida”.



O grande problema que vejo no “coach de vida”, sobretudo do que se aventura na área da saúde, é a falta de profundidade e cientificidade em seu discurso. Por detrás de uma coletânea de frases ensaiadas, tais como “busque sua verdadeira essência” ou “você é o senhor da sua própria vida”, sempre entoadas em tom peremptório e pomposo, observa-se uma latente falta de conteúdo que possa, de fato, agregar à vida de um paciente.



O mais interessante é que muitos dos cursos de “coaching” se autointitulam científicos, talvez por misturarem elementos de psicologia, neurolinguística e administração, porém um simples exame de seus conteúdos e referenciais leva à conclusão de que suas bases teóricas são excessivamente genéricas, confusas e de baixa aplicação (para ser bondoso) à sua finalidade. Para ficar num único exemplo, já experimentam buscar artigos científicos de qualidade (com uma amostra representativa, um bom controle do efeito placebo e um seguimento razoável, por exemplo) que verificassem o efeito do “coaching” na obesidade ou na qualidade de vida? Ainda assim, há quem prometa tratar (e, pior, ensinar a tratar) essa condição cientificamente usando o “coaching”...



Lidar com pacientes que sofrem com complexas condições de difícil tratamento, como, por exemplo, a obesidade, exige responsabilidade, experiência e conteúdo científico profundo. Com efeito, as inúmeras barreiras, apontadas pela literatura séria desse campo, em conduzir programas efetivos que resultem em ganhos palpáveis de qualidade de vida e saúde (em seu sentido mais amplo) alimentam a proliferação de intervenções oportunistas, que prometem um caminho fácil e duradouro, sem efetivamente oferecer um meio para tal. Dietas da moda e técnicas de autoajuda, como o “coaching”, incluem-se nesse hall.



O exercício de distinguir ciência de empirismo é árduo, pois as capacidades de ser iludido e iludir do ser humano parecem igualmente infindáveis. Como regrinha básica, sugiro desconfiar de intervenções que apresentem uma ou mais das características abaixo:




  1. Dependência de alguma “força mística” ou “energia” para funcionar;

  2. Uso seletivo e enviesado de dados científicos para dar suporte à certa alegação de eficácia;

  3.  Necessidade de que clientes e seguidores tenham uma boa dose de fé para aceitarem a eficácia da terapia;

  4.  Busca de legitimidade através da criação de “mestres”, que angariam seus próprios seguidores;

  5. Negação veemente da literatura científica vigente e/ou do próprio método científico, quando convém;

  6. Dificuldade em responder a questionamentos acerca das bases teóricas da terapia;

  7. Líderes e fundadores carismáticos, tratados com reverência pelos discípulos.



Ainda assim, há de se tomar cuidado para não ser iludido. A estratégia dos “coaches” é sempre muito persuasiva, como destacado pelo Professor Honório de Medeiros em seu blog. Segundo ele, em seu proveito, o “coach” “aparenta saber em profundidade algo que não sabe” (aliás, ninguém sabe!), como a chave para o sucesso e a felicidade plena do outro. Nesse tocante, a prática do “coaching” flerta com o misticismo e, como tal, apresenta-se como uma versão contemporânea e glamourizada daquela exercida há tanto tempo por “magos” da autoajuda, curandeiros, terapeutas holísticos, numerólogos, cartomantes, etc. A prática de todas essas atividades pode ser considerada aparentemente inofensiva, até o ponto em que desvie o paciente de tratamentos baseados em evidência.   



Aos alunos e profissionais que acompanham o blog e gostariam de se aprimorar, sugiro que invistam em cursos científicos oferecidos por Instituições e profissionais de qualidade, fujam de promessas vazias e fórmulas mágicas e, sobretudo, conscientizem-se que o verdadeiro sucesso profissional advém majoritariamente do conteúdo, e não da forma; para esse fim, o “coaching” de nada pode fazer por você.



Prof. Dr. Bruno Gualano - Blog Ciência InForma



www.cienciainforma.com.br



Para saber mais sobre o tema:



A CartomanteMachado de Assis. Fonte: ASSIS, Machado de. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar 1994. v. II. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000257.pdf







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Prof. Bruno Gualano, PhD
Prof. Associado da Universidade de São Paulo

Profa. Desire Coelho, PhD
Nutricionista Clínica e Esportiva

Profa. Fabiana Benatti, PhD
Pós-Doutora na Universidade de São Paulo (USP)

Prof. Guilherme Artioli, PhD
Prof. Dr. da Universidade de São Paulo

Prof. Hamilton Roschel, PhD
Prof. Dr. da Universidade de São Paulo