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04 de abril de 2016

Nutrição

Afinal, por que há tantas controvérsias no mundo da nutrição?

Ovo, chocolate, carne vermelha e leite são apenas alguns dos muitos alimentos envolvidos em controvérsias épicas na área de nutrição e saúde. Ora são a salvação para todos os males, ora são cruéis vilões. Aliás, diversos destes alimentos são um prato cheio para os tão criativos criadores de piadas e memes na internet. Mas afinal, por que existem tantas controvérsias?


Se você ainda não consegue decidir se deve ou não comer carne vermelha ou leite, eu não te culpo. Como se decidir? Num dia, inúmeras reportagens mostram estudos dizendo que esses são o demônio na forma de alimentos. Noutro, outras tantas reportagens mostram justamente o contrário. Posts compartilhados no facebook e instagram multiplicam-se a cada novidade. E é justamente nesse momento que a moderação do leitor, por mais capacitado que ele seja, vai por água abaixo. Defensores e atacantes vão rapidamente para o embate com uma avalanche de comentários fervorosos. 



Sim, eu sei que isso vale para muitos temas. Mas quando falamos de ciência, acredito que estudos sobre a saudabilidade de alimentos batem recordes. Em função disso, muitas pessoas nos perguntam com frequência, o que explica tanta controvérsia? Para tentarmos desvendar este mistério, precisamos pensar no tipo de estudo mais comumente realizado quando o objetivo é saber se determinado(s) tipo(s) ou conjunto(s) de alimentos é(são) benéficos ou deletérios à saúde: estudos de associação.    



Estudos de associação são aqueles que avaliam a associação de uma determinada variável com outra. Na área da nutrição, os estudos costumam determinar o que determinada população consome e o quanto isso se associa a algum indicativo de saúde, como, por exemplo, peso corporal, percentual de gordura, circunferência da cintura, colesterol sanguíneo, glicemia (açúcar no sangue) e etc. Este tipo de associação pode ser feita em apenas um momento (nos chamados estudos transversais) ou ao longo de um período (nos chamados estudos longitudinais). Um exemplo de estudo transversal seria avaliar em determinada população o quanto ela consome de leite e medir sua massa magra. Feito isso, pode-se fazer análises de associação que podem inferir se quem toma mais ou menos leite tem mais ou menos massa magra e tentar estabelecer uma associação. Caso este seja um estudo longitudinal, essa análise pode ser feita ao longo de alguns anos, por exemplo.



Em qualquer dos casos, temos que ter em mente que estes estudos são estritamente observacionais, ou seja, não há qualquer intervenção. Apenas se observa a associação entre variáveis. Qual o principal problema destes estudos? A total incapacidade de estabelecer relações causa-e-efeito entre as variáveis analisadas. Ou seja, nos estudos acima, eu não posso dizer que tomar mais leite causa maior ou menor massa magra em uma população, eu só consigo dizer que essas variáveis estão associadas. Isso, pois, este tipo de estudo tem diversas limitações, dentre as quais eu gostaria de destacar: 




  1. É possível que uma associação observada ocorra puramente ao acaso. Por exemplo, é possível que em uma determinada população, pessoas com o pé maior comam mais alface do que pessoas com o pé menor. Ao se fazer uma análise de associação, muitos concluirão que comer alface leva ao aumento do tamanho do pé. Mas há alguma plausibilidade científica para essa afirmação? Não! O mais provável é que esse seja mais um clássico exemplo de associação espúria (para quem quiser alguns bons – e bem humorados – exemplos de associação espúria, clique aqui). Daí a enorme importância de se ter uma boa hipótese de estudo e não apenas associar variáveis que podem estar correlacionadas ao acaso. 

  2. É possível que fatores de confusão interfiram na análise. Por exemplo, é possível que pessoas que tomam mais leite, também comam carne vermelha e, portanto, mais proteína. Isso poderia explicar, por exemplo, uma possível associação entre o consumo de leite e massa magra. Claro que os bons estudos de associação usam ferramentas que minimizam a interferência do maior número de fatores de confusão possível, tentando contornar este problema. Mesmo assim, ainda há a possibilidade de que este controle não seja suficiente para avaliar a interferência de algum fator de confusão nas variáveis analisadas. 

  3. A avaliação adequada do consumo nutricional é uma das maiores dificuldades que temos hoje na área da nutrição. Além de serem pouco precisas por natureza, dependem da memória e da precisão das pessoas em relatarem o que comem. Isso é ainda pior em estudos populacionais, ou seja, com amostras muito grandes, uma vez que o método geralmente utilizado (questionários de frequência alimentar) é ainda menos preciso. Ou seja, é possível que por conta de uma avaliação incorreta ou pouco precisa do consumo alimentar, associações errôneas sejam feitas. 



Isso quer dizer que este tipo de estudo não serve para nada? Não! Apesar das limitações, estudos de associação podem sim ser de grande valia! Ao observar uma potencial associação, o curso natural da ciência seria testar a hipótese (ou seja, se há uma relação de causa-e-efeito entre as variáveis) em um estudo clínico, randomizado e controlado. Apenas estes estudos são capazes de estabelecer relações de causa-e-efeito. Usando nosso primeiro exemplo, isso significa que eu deveria selecionar voluntários com características similares e dividi-los em dois grupos aleatoriamente. Um grupo então passaria a consumir mais leite ao longo de um determinado período. Nada mais poderia mudar em suas vidas. Ao final do período, avaliaríamos os efeitos na massa magra. Parece simples? Não é! Entenda que esse desenho experimental está sendo extremamente simplista! Ao fazer com que pessoas consumam mais leite, por exemplo, é natural que elas parem de consumir algum outro tipo de alimento. Isso por si só já pode interferir na massa magra. Caso elas não o façam, consumirão mais calorias por dia, o que também pode interferir na resposta. Além disso, outros fatores também podem interferir, como o nível de atividade física, a falta de aderência à intervenção (no caso, consumir mais leite) e etc. Ou seja, não é NADA simples.



É por isso que a esmagadora maioria dos estudos que buscam encontrar associação entre a alimentação e variáveis de saúde é de natureza observacional. E, repito, embora esses estudos tragam informações importantes, o grande erro de muitos é tirar conclusões absolutamente afirmativas dos mesmos! Temos que entender as limitações e, com base nelas, interpretar os resultados com MUITO cuidado. Precisamos ter este senso crítico ao ler estudos deste tipo! E precisamos de ainda mais senso crítico ao ler reportagens e postagens sobre esses estudos. Moderação é, mais uma vez, a palavra da vez.



Fabiana Benatti - Blog Ciência InForma



www.cienciainforma.com.br







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