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05 de novembro de 2014

Nutrição

A desidratação realmente piora o desempenho esportivo?

Os livros-texto mais tradicionais de Nutrição ou Fisiologia do Exercício comumente trazem informações sobre os riscos da desidratação sobre a saúde e o desempenho físico de atletas. No entanto, há evidências científicas recentes sugerindo que a desidratação induzida pelo exercício não é um bicho tão feio como pintam por aí...


Os livros-texto mais tradicionais de Nutrição ou Fisiologia do Exercício comumente trazem informações sobre os riscos da desidratação sobre a saúde e o desempenho físico de atletas. No entanto, há evidências científicas recentes sugerindo que a desidratação induzida pelo exercício não é um bicho tão feio como pintam por aí...   

"Beba mais do que manda a sede". "Beba quantidades abundantes de água antes, durante e depois (a prática esportiva)". "Comece a beber muito antes de sentir sede". "Beba tanto quanto o tolerável". 

Todas essas recomendações foram extraídas de importantes livros-texto que tratam sobre a Ciência do Exercício. "Beber água" tornou-se quase um dogma para atletas, uma vez que a desidratação induzida pela exercício tem sido considerada, classicamente, como um importante fator indutor de fadiga e complicações à saúde. Neste e no próximo post, trarei novas evidências sobre os efeitos da desidratação sobre o desempenho esportivo e sobre a saúde de praticantes de atividade física. Comecemos pelo primeiro tópico: a desidratação realmente prejudica o desempenho esportivo?  

O Colégio Americano de Medicina do Esporte recomenda que praticantes de atividade física não tenham uma redução de massa corporal superior à 2% durante o exercício (equivalente à cerca de 2L de água), sob pena de prejudicar o desempenho esportivo. Contudo, a assertividade dessa recomendação (conhecida, na ciência, como "grau de evidência") é bastante questionável.  

É o que sugere um recente estudo realizado por pesquisadores australianos e neozelandeses. Nessa investigação, 10 ciclistas foram desidratados a -3% da massa corporal, por meio de uma sessão de exercício de longa duração. Na sequência, os participantes receberam infusão venosa, a fim de (1) repor toda a água perdida, (2) repor parcialmente a água perdida ou (3) não repor nada da água perdida. Como a reidratação foi endovenosa (e essa foi a grande "sacada" do estudo), os ciclistas não souberam se estavam sendo efetivamente reidratados ou não, evitando, assim, o "efeito placebo" da ingestão oral de líquidos. Em seguida, os participantes tiveram seu desempenho avaliado em uma prova de 25 Km, realizada sob uma temperatura de 33o C.  Curiosamente, o tempo para completar a prova, a percepção de cansaço e o "estresse" cardiovascular  (frequência e débito cardíacos) foram similares em todas as condições, sugerindo que a desidratação correspondente a até 3% da massa corporal não prejudica o desempenho esportivo, ao contrário do que dizem as diretrizes oficiais. 

Esse resultado não é isolado. Há, de fato, uma recente revisão sistemática (aquela que "agrupa" os achados de diversos estudos originais) demonstrando que atletas desidratados tendem a apresentar desempenho superior do que aqueles que não desidratam. Embora esse resultado cause estranheza num primeiro momento, é lógico imaginar que atletas de corrida e ciclismo, por exemplo, possam desempenhar melhor quando "carregam", durante uma prova, menor massa corporal, proporcionada pela perda de água.    

Sendo assim, é possível afirmar que a desidratação nem sempre está associada à perda de desempenho esportivo, particularmente em provas de curta duração (duração < 1h) e em modalidade de força e potência muscular, nas quais a perda de água é frequentemente inferior a 3 ou 4% da massa corporal. 

Se o impacto da reidratação sobre o desempenho esportivo pode ser supervalorizado, o que dizer em relação à saúde? Qual o risco a que se submete um corredor de 60 Kg que perde, supostamente, 3 ou 4 Kg durante uma maratona? E se esse mesmo corredor ganhar 1 ou 2 Kg de massa corporal por conta de uma alta ingestão de líquidos, há algum risco? Podemos ou não confiar na sede? Tratarei dessas perguntas no próximo post. Até lá!


Bruno Gualano  - Blog Ciência Informa

www.cienciainforma.com.br

Para conhecer mais sobre o tema, leia: 

Wall BA et al. Current hydration guidelines are erroneous: dehydration does not impair exercise performance in the heat. Br J Sports Med (no prelo)

Goulet ED. Effect of exercise-induced dehydration on time-trial exercise performance: a meta-analysis. Br J Sports Med 2011;45:1149–56.








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